<aside> 💡 A HISTÓRIA DA PITICO

ENTREVISTA DE MÁRIO CAMPOS, FUNDADOR DA PITICO STUDIO.

TRECHO DO LIVRO - "PARA NÃO MORRER NA PRAIA" - ENTREVISTA REALIZADA EM 07.01.2005

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Eu comecei na realidade na Elfi Propaganda, fazendo estágio, né. Eu era moleque, tinha uns dezesseis anos, nem fui registrado. Era do lado da Tribuna, trabalhava aquele cara que era, trabalha na produção hoje na Tribuna, aquele moreno, um moreno, alto... não me recordo do nome, é muito tempo. Mas era do lado da Tribuna. Acho que quem trabalhou lá, na época, era uma menina, tem uma agência hoje, mas é difícil lembrar. A Elfi fazia lançamentos de prédios. Era do lado da Tribuna. Tanto é, que a sirene do meio-dia da Tribuna tocava e saía todo mundo correndo. A janela era do lado da sirene entendeu, daí tocava meio-dia todo mundo saía correndo e ia embora almoçar.

Eu entrei lá e comecei fazendo aquele “ioioio”. Era a única coisa que eu fazia, comecei fazendo aquilo. Pegava os layouts, via a marcação e tinha que marcar o texto. Então eu ia lá “ioioioio”... ficava o dia inteiro fazendo aquele treco. “Aqui tu marca mais pesado, com esta caneta, pra dar mais peso”, “ioioio”. Aí, eu não sei como, eu fui pra Design Publicidade. A agência era da Betinha, ela trabalhou bastante “ tempo. A Bete foi muito conhecida na época. O pai dela era construtor. Eu acho que até hoje eles estão no ramo, ainda, em São Paulo. Porque eu os vi uma vez na praia, até lembraram de mim.

Fiquei na Design uns três anos (entre o final da década de sessenta e o início dos anos setenta). Tinha várias pessoas lá. Eu acho que, pra época, era uma agência até razoavelmente grande para Santos, né. Tudo era nessa faixa, nessa média. Na época tinha a Sinex, tinha a Design, tinha a Hugo Paiva, a Clã. A Hugo Paiva era maior. A Design até que durou. Eu saí, ela ficou, ainda, acho que por uns quatro, cinco anos. Durou bastante tempo. O João Carlos (Gonçalves) trabalhou lá. E eu já estava lá, acho que há uns dois, três anos, aí entrou o Joãozinho. Foi aí que eu conheci o Joãozinho. O João continuou e eu saí.

Na Design eu fazia layout. É porque a agência também estava começando. Eles trabalhavam em São Vicente, na casa da “Bete, quando eu fui pra lá. Eu era inexperiente, garotão ainda, né. Era dentro da casa dela. A gente começava a fazer o layout, daí ela trazia o material, queria assim, assado. Eu não tinha experiência nenhuma, nunca tinha visto. A única coisa que eu vi de publicidade, foi na Elfi, aquelas meninas trabalhando, eram duas meninas, na época. Aí comecei a fazer, a desenhar, me inspirava muito nos anúncios do Mappin (famoso magazine de São Paulo). Achava aquilo o máximo. Eu queria fazer publicidade, nem sabia o que era publicidade. Meu pai tinha um bar, né. Então, eu ficava copiando os anúncios do Mappin. Eu ficava no balcão do bar fazendo anúncios, copiando anúncios. Eu não me dava bem com o meu pai. Era uma briga danada, eu nunca falava pro meu pai, que vinha de comércio, meu tio tinha panificadora, que eu não dava pra esses trecos.

Os anúncios do Mappin, acho que eram os melhores do varejo. Sei lá, há vinte, trinta anos atrás. Eu pegava aqueles anúncios de página, aquelas putas ilustrações com aguada! As ilustrações de roupas que os caras faziam... puta negócio bonito, né... Eu achava tudo aquilo... era arte! Eu ficava encantado “com aquilo. Aquele Mappin, grandão, bonito, aqueles caras desenhados, pintados... Eu já sabia o que queria. Aí, foi assim que eu comecei. Eu já entrei na Elfi porque gostava de desenhar.

Daí eu entrei na Clã (sua admissão consta nos registros da agência em junho de 1973, aos 18 anos). Saí da Design e fui pra Clã . Sim, pra Clã, que era lá na Senador Feijó. Aí saiu anunciozinho, saiu um anúncio da Clã. Eu fiquei até com medo... Eu lembro até hoje que a Clã fazia aqueles anúncios grandes e os da Elfi eram muito pequenininhos, tão pequenininhos... “Pô, eu vou lá”... Eu ainda fiquei um tempo trabalhando na Design. Vendo aqueles anúncios grandes, da Clã, eu fiquei com medo: pra anúncio grande deve ser um cara bom que eles querem, né. Mas eu fui lá, levei os anúncios (que copiava). Eu tinha pouca experiência, ainda dois, três anos, um pouco mais, era praticamente nada.

Aí fui pra Clã e era grande! O negócio era legal! Puta, a melhor fase de trabalho que teve foi na Clã! Tinha o J.C. Lôbo, tinha o Gilberto Amaral. Puta! Tinha uns paus ferrados porque era do lado daquele Bingo Show Dança “Não sei se te falaram já, que o Gilberto brigava, chamava a polícia, o caraco! Os caras começavam a ensaiar e ele queria fazer as criações, né. Puta... os caras começavam a tocar, a ensaiar, ele abria a janela e quebrava o pau! O Gilberto também brigava muito com o Miller, saía no pau, mesmo. Eles se pegavam, era um negócio! O Batan apartava.

Era eu, o Batan, o Batan trabalhava na prancheta, o Joãozinho, que veio depois. Ficamos em cinco no estúdio, era legal. Praticamente, eu acho que o estúdio era carro chefe na época. E na redação era o Gilberto Amaral, sozinho. No atendimento era o Miller, o restante eu não lembro. O Miller e o Gilberto Amaral brigavam porque tinham diferenças de visão de como trabalhar, de como levar a empresa. A gente não se ligava muito, não. Mas tinha vez que quebrava um pau danado, mas a gente não se ligava no porquê da briga, não sei se era por causa de anúncios que não saíam... porque o cara demorava pra fazer a criação.

Na época, o Miller parece que tirava um pouco de sarro do Gilberto. E o Gilberto, como era aquele cara que “quase nunca fazia atendimento... ele era mais estrela do que o Toninho! Aí era grave, ele vinha com uns paletós... aqueles negócios pra fora, todo (produzido)... era, bem... (fashion). Ele veio de São Paulo e depois foi pra São Paulo, de novo. Mas era estrelão. Eu achava, na época, que a gente (em Santos) tinha uma visão diferente. Quando a gente está no início, a gente tem uma visão, quando a gente é pequeno... Eu entro aqui (estúdio atual), achava que isso era grande. Mas é tão pequenininho... Pra minha época, na minha visão daquela época, o Gilberto era bem estrela. Era um cara, todo mundo respeitava ele. Por ser estrela, porque não dava muita abertura pra você falar... Tem uns caras que você tem que manter uma certa distância.

Quer dizer, pode até ser que quem mandava era redação, e ele mantinha o pessoal à distância, não discutia, não conversava, era ele quem mandava, acima do atendimento. Sempre teve esse negócio (Criação x Atendimento). O Lôbo era sócio... era o Lôbo, Gilberto Amaral e Miller. Mas como Lôbo parece que também não se dava bem com o Gilberto, sempre caía nas costas do Batan.

A mim me parece que o que pegava entre os dois era o negócio de entrada e saída de trabalho no estúdio, entendeu. O Lôbo era super escrachado, só queria fazer o trabalho de prancheta normal, não queria se envolver muito, ficava só desenhando, lá. Então, o Batan sempre pegou mais esse negócio de dirigir, liderar. Direção de arte, o negócio (de administrar talentos) do trabalho, de fazer o serviço sair, foi só com o Batan. Havia até a possibilidade muito maior de diálogo com o Gilberto através do Batan.

Eu gostava de ganhar dinheiro também, né. Eu acho que é essa a motivação para encarar o trabalho, a pessoa tem que ser gananciosa. Eu queria ter carro, moto, sair no final de semana... A única possibilidade era trabalhar. Eu sempre tinha dois empregos. Eu fazia free-lancer. Bastante free-lancer. E comecei a fazer pintura, eu acho que estava com 18 anos, comecei a pintar. Eu pintava e expunha na Praça da República, em São Paulo. Aí, coitado, não conseguia vender quase nada. Eu lembro que saía daqui pra São Paulo, cheio de quadros, ganhava pro sanduíche... às vezes, nem ganhava. Mas sabe aquelas de gostar? Eu pintava, eu ia por prazer, tinha lá uns cavaletes e desenhava e pintava.

Na fotografia eu entrei porque fui fazer um curso de fotografia, fiz em Santos. O cara tinha um laboratório na Ana Costa, no quarto andar. Era fotógrafo. Mas o cara era notável, ele fazia autocontraste, fazia filme-traço, fotolitinho pequeno pra fazer uma fotografia diferente. Não lembro o nome dele, mas ele tinha um defeito na perna. Eu acredito que ele foi o precursor da fotografia publicitária em Santos. Mas ele não fazia atendimento. Ele dava aula, mais como meio de vida artístico. Pra você não fazer aquelas fotos triviais, bonitinho e tal. Então ele dava autocontraste, tal... Foi por isso que eu pude mexer com o laboratório da Faculdade de Comunicação de Santos. Eu acho que fiquei uns dois ou três anos, lá. No laboratório de fotografias, quando era lá na Rua Sete de Setembro.

Foi na década de 1970, eu acho que foi o Batan que me arrumou lá. Eu estava na Clã nessa época. Eu sempre gostei mais de laboratório. Mas eu pintava, né. Então, eu fui fazer curso lá na (Escola) Pan-Americana de Artes. Fui fazer um curso de publicidade. Entrei na Avenida Angélica que era primeira Pan-Americana, onde era o curso. “Aí, o que acontece... eu já trabalhava há anos já tinha um tempo de agência, vi que o negócio era meio cru pra mim. Achei o curso fraco, muito fraco. Eu achava que precisava aprender mais e aí até foi bom porque serviu para me autoafirmar. Eu já tinha ido além e nem sabia.

Aí fui falar com o Nico Rosso, não sei se você lembra dele. Era um dos diretores da Pan-Americana, ele ilustrava capas de livros, revistas, quadrinhos. Era internacionalmente famoso mesmo. Era tudo dele. Hoje, o neto do Nico Rosso faz comerciais, mas tudo digital. Eu estive vendo um documentário muito bom. Mas daí eu falei: — “Professor, sabe o que acontece? Eu já trabalho na agência, eu tinha dado a matrícula, já era um dinheiro, saía caro”, eu falei com ele. — “Você trabalha? O que você quer fazer, então?” — “Sei lá, então vou fazer ilustração”. — “Então está bem, eu vou te colocar na ilustração”.

Saí da Angélica e fui pra Conselheiro Brotero, fui fazer ilustração. Aí eles davam um maço de cigarros ilustrado, desenhado, pintado e você tinha que reproduzir passo a passo. Porra, eu fazia rapidinho. No balcão de meu pai eu já pintava, eu já tinha feito curso de pintura clássica na Artelândia (em Santos), já conhecia as tintas, então... E, pra mim, era um sacrifício. Naquela época eu saía às quatro da tarde pra ter aula às oito. Eu chegava em São Paulo eram, sete, sete e trinta da noite. Pegando ônibus aqui às quatro chegava“ em São Paulo, lá na Estação da Luz, com o estômago nas costas.

Comia um pastel e um caldo de cana e quando chegava só tinha bacana. Era um curso caro, não era qualquer um que podia fazer. Só tinha carrão parado na porta da escola. Aí, eu queria fazer um curso pra valer. De novo, eu achei o curso fraco. Pra mim era muito sacrifício, duas ou três vezes por semana. Fui falar com o professor. — “Tu aqui de novo!”. Aí eu falei, pois, é... mas já tenho trabalhos, já venho expondo ali na Praça da república. E pra expor na Praça tinha uma comissão julgadora, não era assim. Tinha uma seleção, tinha que ter licença, tu tinhas que levar três, quatro quadros seus. Então, não era qualquer um que expunha. Tinha realmente que ter alguma qualidade, né.

Então expliquei pra eles, porra. — “O que você quer fazer? Porque ilustração não dá”. – “Pra não perder o dinheiro, pô, vou fazer fotografia, então”. E pensei: pelo menos eu vou fazer e fotografo direitinho as coisas e começo a fazer os quadros em casa, né. Vou fazer os quadros em casa, vou fazendo mais direitinho, com tempo. Foi sorte, peguei um cara assim, acho que todo curso depende do professor, acho que o professor é fundamental. Peguei um cara espetacular, sabe. Era o J. Godoy. O cara fotografava muito de tudo, produtos, carros... era justamente na área que eu estava trabalhando, que era a publicidade. Era fotógrafo publicitário em São Paulo, muito bom!

Lá tinha tudo coisa que eu gostava. Máquinas 4x5 que eu nunca tinha visto... O Godoy só ia de preto. Daí ele tinha uma barbichinha aqui, daí ele ficava... ele era cabeludão, devia ter uns quarenta anos na época, ele ficava com a barbicha aqui, era uma figura. Fazia um tipo, né. Todo mundo tinha um tipo, né, fazia parte. Eu lembro que mais tarde, o Toninho falou assim: — “Pô, você é muito comum. Você tem que deixar o cabelo crescer, fazer alguma coisa, pôr uma roupa diferente... você é um fotógrafo”. O Toninho fazia tipo. Uma vez ele foi com um terno cor de rosa, todo rosa! Hoje tudo bem... mas faz quanto tempo isso! Eu sempre achei que ele era muito talentoso, até em direção de filme.